Funcionário fantasma, sócio do haras de Juscelino Filho é exonerado no Senado

Por Luís Pablo Política
 

Por Julia Affonso, Vinícius Valfré, Tácio Lorran e Daniel Weterman/ Estadão

Juscelino Filho e o sócio Gustavo Gaspar

Juscelino Filho e o sócio Gustavo Gaspar

O sócio do haras onde o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, cria cavalos de raça, no interior do Maranhão, foi exonerado do Senado após reportagem do Estadão mostrar que Gustavo Marques Gaspar era um funcionário fantasma em Brasília e não dava expediente onde deveria. O empresário recebia um salário de R$ 17,2 mil, mas no local onde deveria trabalhar, ninguém o conhecia.

Nesta terça-feira, 14, o gabinete do senador Weverton Rocha (PDT-MA), para quem Gaspar deveria prestar serviços, afirmou que o funcionário pediu para ser exonerado. Segundo a nota, o fantasma deixou o cargo por “não se sentir confortável com a superexposição”. Antes da publicação da primeira reportagem, Gaspar foi procurado pelo Estadão, mas não respondeu aos contatos.

A exoneração foi publicada no Boletim Administrativo do Senado nesta segunda-feira, 13. A portaria 2.458, que traz a decisão, foi assinada pelo diretor-executivo de gestão, Marcio Tancredi.

O sócio do haras havia sido nomeado para o cargo de assistente parlamentar sênior no Instituto Legislativo Brasileiro e estava lotado na liderança do PDT.

O Estadão esteve na liderança do PDT no Senado há duas semanas, onde Gaspar deveria dar expediente. Na ocasião, servidores disseram que não conheciam o suposto funcionário. Diante do constrangimento, o responsável pelo gabinete, Silvio Saraiva, admitiu que ele não trabalhava no local onde estava lotado.

Gaspar foi realocado para a Segunda Secretaria do Senado, comandada desde fevereiro pelo senador Weverton (PDT-MA), dois dias após a reportagem procurá-lo. O parlamentar é compadre de Juscelino e um dos fiadores da indicação para a pasta das Comunicações, ao lado do colega Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Weverton era o líder do PDT no Senado em 2019, quando Gaspar foi nomeado. Em fevereiro de 2021, a liderança do PDT passou a ser comandada pelo senador Cid Gomes (CE), mas o servidor continuou empregado. Na função, ele não era liberado de marcar presença em sistema de ponto eletrônico.

“O exercício dele continuou aqui por falha mesmo. Deveria ter sido requisitado o exercício dele para o gabinete do senador Weverton. Não foi. Provavelmente, ele (Gaspar) está trabalhando na Segunda Secretaria, que é onde o senador Weverton está agora. Não deve estar nem no gabinete dele”, justificou o chefe de gabinete do PDT ao Estadão. Ele não explicou como a ‘falha’ só foi percebida dois anos depois, quando houve o questionamento da reportagem.

Homem de confiança do ministro na política e nos negócios, o funcionário fantasma é irmão de Tatiana Gaspar, contratada pelo ministro como assessora especial das Comunicações, com salário de R$ 13,2 mil. Quando deputado, Juscelino Filho já havia empregado o pai de Gaspar, de 80 anos, com salário de R$ 15,7 mil.

No papel, Gaspar e a irmã do ministro, a prefeita de Vitorino Freire (MA), Luanna Rezende, são sócios do haras. O ministro, contudo, é quem lidera o negócio, mas não aparece formalmente nos registros. O Estadão telefonou para o empreendimento e quem atendeu não soube informar quem era Gustavo Gaspar. O funcionário pediu para a reportagem falar com o ministro das Comunicações para saber quem administra o haras.

Gustavo Gaspar e o ministro participaram de uma transação imobiliária em 2007. Juscelino Filho vendeu 165 mil metros quadrados da área do haras para Gaspar por R$ 50 mil (R$ 124 mil atuais). Em 2018, o então deputado readquiriu o terreno por R$ 167 mil (R$ 215 mil).

Como mostrou o Estadão, o estabelecimento guarda parte dos mais de R$ 2 milhões em cavalos que pertencem ao ministro e não foram declarados à Justiça Eleitoral. Em vídeo publicado na semana passada, Juscelino Filho admitiu possuir um patrimônio de cavalos. A reportagem também mostrou que o ministro usou um avião da Força Aérea Brasileira e diárias para ir a leilões de cavalos em São Paulo.

O Estadão também mostrou que um grupo ligado a Weverton Rocha e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) assumiu o controle da diretoria de radiodifusão privada no ministério de Juscelino Filho. Além disso, um apadrinhado de Weverton Rocha foi nomeado como diretor dos Correios.

O jornal mostrou, ainda, que o ministro usou um voo da FAB e diárias do governo para ir a reuniões relacionadas a cavalos em São Paulo, inclusive leilões. Em um desses eventos, um cavalo de Juscelino foi apresentado para impulsionar a venda de uma égua, que teve os direitos de 50% sobre ela arrematados por R$ 1 milhão. Nenhum dos compromissos constava da agenda oficial de Juscelino. Após o Estadão revelar o caso, o ministro devolveu o dinheiro ao governo.

Apesar da série de acusações sobre mau uso do dinheiro público, Juscelino foi mantido no cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele cedeu à chantagem do União Brasil que ameaçou votar contra projetos de interesse do governo caso o ministro fosse exonerado.

Lula chegou a ameaçar demitir Juscelino se ele não conseguisse dar explicações convincentes. Após se reunir com o ministro, Lula preferiu preservá-lo no posto e sugeriu que ele desse declarações públicas sobre a apropriação de diárias e uso de jato da FAB para viajar a São Paulo.

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