
Ministro Alexandre de Moraes só cabe a renúncia
Editorial | Luís Pablo
As revelações envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro ultrapassaram todos os limites do que pode ser tratado como uma relação pessoal. Os documentos expõem uma proximidade incompatível com o cargo ocupado pelo ministro e levantam dúvidas que atingem diretamente a credibilidade do Supremo Tribunal Federal.
Não estamos diante de uma conversa isolada. Vieram à tona encontros, mensagens, pedidos de ajuda e referências a autoridades responsáveis justamente por investigar e fiscalizar. Poucos dias antes de ser preso, Vorcaro chegou a perguntar a Moraes se já deveria estar fora do país. Uma pergunta dessa gravidade não pode ser respondida com silêncio.
Há também o contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da esposa do ministro. Os registros indicam que Moraes analisou o documento e aparece como responsável pela última modificação de versões do contrato. O escritório apresentou sua explicação, mas o tamanho do negócio, a proximidade entre as partes e tudo o que surgiu depois exigem muito mais do que uma nota.
As mensagens revelam ainda Vorcaro recorrendo a Moraes ao mencionar Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. Não importa apenas saber se o ministro recebeu ou respondeu a cada mensagem. O país precisa conhecer a natureza dessa relação, quais interesses estavam em jogo e por que um banqueiro investigado enxergava em um ministro do STF um canal para tratar de interesses que revelam uma relação promíscua entre o poder público e o poder econômico.
Ministros do Supremo julgam, determinam prisões, autorizam buscas e interferem diretamente na vida de milhões de brasileiros. Quem exerce tamanho poder não pode conviver com tamanha sombra de dúvida. A autoridade de uma decisão judicial não nasce apenas da caneta, mas da confiança de que ela está nas mãos de alguém independente e acima de interesses privados.
Alexandre de Moraes perdeu as condições políticas, morais e institucionais de permanecer no STF. Sua renúncia não apagaria os fatos nem encerraria as investigações, mas evitaria que o peso dessas revelações continuasse arrastando a Suprema Corte para uma crise provocada por um de seus próprios integrantes.
Se Moraes decidir permanecer, caberá ao Senado cumprir sua responsabilidade constitucional. Nenhum cargo pode servir de abrigo contra explicações, investigações e consequências. O poder não torna ninguém intocável. Quanto maior a autoridade, maior deve ser a prestação de contas.
O Brasil já viu os documentos. Agora exige respostas. E o Supremo precisa decidir se preservará a credibilidade da instituição ou o cargo de um ministro.